Estou no Porto em casa de um amigo que normalmente me dá guarida quando ando em trabalho por terras do norte. Há duas semanas que não faço umas ondas, passo os dias entre o asfalto e visitas a clientes. Irónicamente, corro o país a visitar surf shops, escolas de surf e bodyboard, e mar só vê-lo. A ideia que quem vive do surf passa a vida a surfar nem sempre está certa, e eu sou, neste momento, a prova viva disso. Amanhã tenho possibilidade de surfar mas pelo que dizem o único sítio para fazer umas boas ondas é no rio e logo para azar há um campeonato de surf. De qualquer modo decidi ficar por casa e rejeitar o apelo da noite da invicta, para me levantar cedo e checar o mar logo pela manhã.Aqueço um chá e escolho um livro da estante da sala, quero algo fácil de ler, que não seja muito extenso, para não ficar com aquele entusiasmo de chegar ao fim e obrigar-me a ficar acordado até de madrugada. “Cem poemas de Sophia” salta-me à vista. O livro é estreito e contem cem poemas escritos entre 1944 e 1997 por Sophia de Mello Breyner Andersen. Desfolheio rápido a introdução e leio o primeiro poema que para minha admiração se intitula “Mar”.
“De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.”
Que partida do destino, quando me sinto mais saudoso de casa, surgem-me estas linhas. A bom dizer ainda não é Primavera e o Porto não cheira a àrvores ou a terra, mas sinto a força do poema como se tudo fosse verdade. Já andei em ondas de tantas praias, de tantos países e sempre que estou longe sinto falta da minha praia, dos meus amigos de ondas, aqueles com quem partilho as sessões mais épicas, as manobras mais iradas, mesmo que essas não sejam merecedoras de aplauso. É lá que me sinto em casa, naquela areia que piso há 29 anos, a mesma que agora pisam os meus filhos, onde aprendi que o respeito não se ganha com autoritarismo ou popularidade, mas na partilha de momentos, no salgar das amizades que se foram fortalecendo a cada surfada. Admito que sou viciado em bodyboard mas sou-lo mais pelas amizades que isso me trouxe, por esse companheirismo. Todos dizemos sonhar com um pico perfeito a quebrar sozinho só para nós, pois eu digo, após tantas viagens solitário, que esse pico só é perfeito se for partilhado com alguém a quem um dia se possa dizer “lembraste”.
Continuo a ler ao som da guitarra de Paco de Lucia, sinto o aroma a cidreira que saí da caneca, e penso que tal como escreveu Sophia umas páginas à frente, também eu,
“Quando morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.”
in "VERT Bodyboard Mag #71"

1 comment:
brutal!
Transmite tal e qual o que eu sinto em relação ao mar..
''esse pico só é perfeito se for partilhado com alguém a quem um dia se possa dizer “lembraste”''
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