Já há muito tempo que não assistia a um jogo de andebol. Aos 12 anos convidaram-me para jogar numa equipa de uma associação desportiva de uma aldeia da zona em que vivia. Tinham-me visto a jogar num torneio da escola e acharam que podia ter potencial. Recusei e fui jogar futebol nas camadas jovens do clube local que na altura estava na berra. Já não sei bem porque o fiz, talvez porque achei que era mais fixe, tinha mais pinta, todo o mundo gostava de futebol e ficava mais parecido com os craques que apareciam nos cromos que saiam nos pacotes de batata frita. Não sei se por acumular as provas e os treinos de natação com os de futebol, ou por ter pouco jeito a dar chutos na bola, ou por chegar à conclusão que não gosto de desportos colectivos, ou pelo somatório de todas as atrás referidas, ao fim de duas temporadas acabei por desistir e comecei a fazer bodyboard, mas fiquei sempre com aquela pedra no sapato a lembrar-me que devia ter experimentado o andebol em vez do futebol, ter tomado a decisão por mim e não pela minha imagem em relação aos outros. Ficou a lição.
Enquanto vejo o jogo, penso naqueles jogadores trabalhadores, sim porque viver do andebol é só para muito poucos e maior parte dos jogadores de andebol acumulam a carreira desportiva com a carreira profissional (e que ali no campo dão 110% pela equipa, quando muitos jogadores de ligas profissionais nem a 50% jogam). A afluência de adeptos aos jogos é reduzida, o nome dos jogadores não vende camisolas, a exposição televisiva é quase nula e em consequência os apoios financeiros são muito reduzidos. Num intante lembro-me de uma conversa que tive com um bodyboarder da velha guarda que defendia a ideia que o bodyboard é um desporto em vias de extinção. Ele dizia que o fosso entre o surf e o bodyboard em termos financeiro era cada vez maior e que o bodyboard era cada vez mais amador, com orçamentos mais reduzidos por falta de patrocínios e que assim não havia futuro para a modalidade e que o surf assim, e que o surf assado... Ao ver este jogo pergunto se terá a mesma opinião em relação ao andebol, e quem diz ao andebol, diz ao hoquei em patins, ou o voleibol quando comparados com o futebol de onze, será que diz o mesmo em relação ao pingpong e ao badmigton quando comparados com o ténis, e estarão o longboard, o kneeboard, o waveski, o skimming e o bodysurf também condenados à extinção nas suas conclusões?
A competição organizada e federativa, e o dinheiro envolvido na mesma é importante para a indústria, para o desenvolvimento técnico e consequentemente para a modalidade, mas não é imprescindivel. Não se deixam de construir mesas de matraquilhos só por que não há equipas profissionais. Enquanto houver gente que goste de jogar, no café, na Associação de Estudantes, na garagem do amigo, a indústria dos matraquilhos continuará a existir.
Eu pessoalmente gosto do nosso desporto como ele é, até porque para mim é mais um estilo de vida do que um desporto. Nunca deixaria de correr na praia ao final do dia se deixasse de existir provas de atletismo, ou de ter uma bicicleta se deixasse de haver a volta a Portugal, ou de ter um skate na mala do carro para andar no estacionamento depois da surfada se não houvesse circuito nacional de skate, ou deixaria de ter carro se o desporto automóvel acabasse, etc. porque isso são hábitos que criei no meu estilo de vida, que nada tem a ver com a competição ou quanto é que um atleta ganha profissionalmente ou se há mais provas ou menos provas, e por tudo isto sinceramente não acredito que o bodyboard algum dia deixe de existir.
Já vai sendo altura de aceitarmos o bodyboard como ele é, quando nos disserem que não há apoios e que o bodyboard não tem futuro, que há poucos campeonatos, e que o surf é que tem a guita toda, etc. respondamos “o que é que isso interessa, caguei para isso tudo”, porque a verdade seja dita, 99,9% de vocês nunca tiveram patrocínios ou entraram em campeonatos ou ganharam dinheiro com prémios e não foi por isso que deixaram de fazer bodyboard e se deixaram de fazer pranchas e barbatanas para se curtir umas ondas. Essa guerra é para outros, não é para vocês, os que patrocinam e apoiam o bodyboard todos os dias.
"in VERT Bodyboard Mag #72"

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