Thursday, June 29, 2006

O QUE É QUE ISSO INTERESSA?

Já há muito tempo que não assistia a um jogo de andebol. Aos 12 anos convidaram-me para jogar numa equipa de uma associação desportiva de uma aldeia da zona em que vivia. Tinham-me visto a jogar num torneio da escola e acharam que podia ter potencial. Recusei e fui jogar futebol nas camadas jovens do clube local que na altura estava na berra. Já não sei bem porque o fiz, talvez porque achei que era mais fixe, tinha mais pinta, todo o mundo gostava de futebol e ficava mais parecido com os craques que apareciam nos cromos que saiam nos pacotes de batata frita.
Não sei se por acumular as provas e os treinos de natação com os de futebol, ou por ter pouco jeito a dar chutos na bola, ou por chegar à conclusão que não gosto de desportos colectivos, ou pelo somatório de todas as atrás referidas, ao fim de duas temporadas acabei por desistir e comecei a fazer bodyboard, mas fiquei sempre com aquela pedra no sapato a lembrar-me que devia ter experimentado o andebol em vez do futebol, ter tomado a decisão por mim e não pela minha imagem em relação aos outros. Ficou a lição.
Enquanto vejo o jogo, penso naqueles jogadores trabalhadores, sim porque viver do andebol é só para muito poucos e maior parte dos jogadores de andebol acumulam a carreira desportiva com a carreira profissional (e que ali no campo dão 110% pela equipa, quando muitos jogadores de ligas profissionais nem a 50% jogam). A afluência de adeptos aos jogos é reduzida, o nome dos jogadores não vende camisolas, a exposição televisiva é quase nula e em consequência os apoios financeiros são muito reduzidos. Num intante lembro-me de uma conversa que tive com um bodyboarder da velha guarda que defendia a ideia que o bodyboard é um desporto em vias de extinção. Ele dizia que o fosso entre o surf e o bodyboard em termos financeiro era cada vez maior e que o bodyboard era cada vez mais amador, com orçamentos mais reduzidos por falta de patrocínios e que assim não havia futuro para a modalidade e que o surf assim, e que o surf assado... Ao ver este jogo pergunto se terá a mesma opinião em relação ao andebol, e quem diz ao andebol, diz ao hoquei em patins, ou o voleibol quando comparados com o futebol de onze, será que diz o mesmo em relação ao pingpong e ao badmigton quando comparados com o ténis, e estarão o longboard, o kneeboard, o waveski, o skimming e o bodysurf também condenados à extinção nas suas conclusões?
A competição organizada e federativa, e o dinheiro envolvido na mesma é importante para a indústria, para o desenvolvimento técnico e consequentemente para a modalidade, mas não é imprescindivel. Não se deixam de construir mesas de matraquilhos só por que não há equipas profissionais. Enquanto houver gente que goste de jogar, no café, na Associação de Estudantes, na garagem do amigo, a indústria dos matraquilhos continuará a existir.
Eu pessoalmente gosto do nosso desporto como ele é, até porque para mim é mais um estilo de vida do que um desporto. Nunca deixaria de correr na praia ao final do dia se deixasse de existir provas de atletismo, ou de ter uma bicicleta se deixasse de haver a volta a Portugal, ou de ter um skate na mala do carro para andar no estacionamento depois da surfada se não houvesse circuito nacional de skate, ou deixaria de ter carro se o desporto automóvel acabasse, etc. porque isso são hábitos que criei no meu estilo de vida, que nada tem a ver com a competição ou quanto é que um atleta ganha profissionalmente ou se há mais provas ou menos provas, e por tudo isto sinceramente não acredito que o bodyboard algum dia deixe de existir.
Já vai sendo altura de aceitarmos o bodyboard como ele é, quando nos disserem que não há apoios e que o bodyboard não tem futuro, que há poucos campeonatos, e que o surf é que tem a guita toda, etc. respondamos “o que é que isso interessa, caguei para isso tudo”, porque a verdade seja dita, 99,9% de vocês nunca tiveram patrocínios ou entraram em campeonatos ou ganharam dinheiro com prémios e não foi por isso que deixaram de fazer bodyboard e se deixaram de fazer pranchas e barbatanas para se curtir umas ondas. Essa guerra é para outros, não é para vocês, os que patrocinam e apoiam o bodyboard todos os dias.
"in VERT Bodyboard Mag #72"

Tuesday, June 13, 2006

SAUDADE

Estou no Porto em casa de um amigo que normalmente me dá guarida quando ando em trabalho por terras do norte. Há duas semanas que não faço umas ondas, passo os dias entre o asfalto e visitas a clientes. Irónicamente, corro o país a visitar surf shops, escolas de surf e bodyboard, e mar só vê-lo. A ideia que quem vive do surf passa a vida a surfar nem sempre está certa, e eu sou, neste momento, a prova viva disso. Amanhã tenho possibilidade de surfar mas pelo que dizem o único sítio para fazer umas boas ondas é no rio e logo para azar há um campeonato de surf. De qualquer modo decidi ficar por casa e rejeitar o apelo da noite da invicta, para me levantar cedo e checar o mar logo pela manhã.
Aqueço um chá e escolho um livro da estante da sala, quero algo fácil de ler, que não seja muito extenso, para não ficar com aquele entusiasmo de chegar ao fim e obrigar-me a ficar acordado até de madrugada. “Cem poemas de Sophia” salta-me à vista. O livro é estreito e contem cem poemas escritos entre 1944 e 1997 por Sophia de Mello Breyner Andersen. Desfolheio rápido a introdução e leio o primeiro poema que para minha admiração se intitula “Mar”.

“De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.”

Que partida do destino, quando me sinto mais saudoso de casa, surgem-me estas linhas. A bom dizer ainda não é Primavera e o Porto não cheira a àrvores ou a terra, mas sinto a força do poema como se tudo fosse verdade. Já andei em ondas de tantas praias, de tantos países e sempre que estou longe sinto falta da minha praia, dos meus amigos de ondas, aqueles com quem partilho as sessões mais épicas, as manobras mais iradas, mesmo que essas não sejam merecedoras de aplauso. É lá que me sinto em casa, naquela areia que piso há 29 anos, a mesma que agora pisam os meus filhos, onde aprendi que o respeito não se ganha com autoritarismo ou popularidade, mas na partilha de momentos, no salgar das amizades que se foram fortalecendo a cada surfada. Admito que sou viciado em bodyboard mas sou-lo mais pelas amizades que isso me trouxe, por esse companheirismo. Todos dizemos sonhar com um pico perfeito a quebrar sozinho só para nós, pois eu digo, após tantas viagens solitário, que esse pico só é perfeito se for partilhado com alguém a quem um dia se possa dizer “lembraste”.
Continuo a ler ao som da guitarra de Paco de Lucia, sinto o aroma a cidreira que saí da caneca, e penso que tal como escreveu Sophia umas páginas à frente, também eu,

“Quando morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.”

in "VERT Bodyboard Mag #71"
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