Monday, March 10, 2008

REFLEXÃO

Vi faz algum tempo o final de uma entrevista ao fotografo Nuno Lobito num qualquer canal da televisão por cabo. Falava-se das várias viagens que Nuno fizera até hoje a sítios tão diferentes quanto a India, a Sérvia, o Laos, o Tibete, Madagascar ou a Amazónia, ao todo viajou por quase uma centena de países, bem como a sua relação com alguns desses locais, o seu vício pelas viagens, o seu percurso profissional e pessoal. Despertou-me especial interesse a sua experiência de conversão ao budismo e os anos que viveu na Amazónia.
Agora o Nuno está de volta a Portugal, está casado, tem um filho, e publicou um livro sobre a sua estadia na Floresta Mágica, como lhe chama. Já no final do programa, para minha surpresa, mostraram algumas imagens do Nuno a fazer umas ondas numa velha Morey Boogie e a empurrar o seu filho de 7 anos numas espumas à beira da praia, enquanto o próprio narrava que era no mar, na sua surfada diária, que mantinha o hábito da meditação que encontrou no budismo.
Sinto que tal como o Nuno, mais de nós encontramos no mar, na arte de deslizar nas ondas, momentos que ultrapassam o acto desportivo, tornando-se espirituais. Sentimo-lo num final de tarde enquanto esperamos pacientemente que o pôr-do-sol traga as últimas ondas do dia, sentimo-lo quando saímos daquele tubo perfeito em perfeita sintonia com o oceano, ou simplesmente sentimo-lo quando caminhamos de volta ao estacionamento num dia de Inverno, cansados, gelados ao ponto de não sentirmos a ponta dos pés e das mãos, mas com uma leveza de espirito e uma chama na alma sem explicação aparente.
Esta serenidade não é possivél de alcançar quando se utiliza as ondas como via para alcançar somente popularidade, muitas vezes recorrendo à arrogância e possessão agressiva das ondas que partem na praia onde costumamos surfar, sem qualquer sentido de partilha ou amizade. Este não é o sentido que o boogie tem para mim e provavélmente também não para muitos de vós.
Eu, tal como o Nuno, espero estar dentro de poucos anos a empurrar os meus filhos numas espumas à beira da praia, com a esperança que também eles encontrem esta espiritualidade, encontrem nas ondas um espaço de reflexão e de serenidade. "Peace Brothers".

Santa Cruz, 30 de Janeiro de 2006

Sunday, August 26, 2007

QUE SE LIXE A TAÇA...

Se há coisa que me irrita é estar na água e ouvir “futebolisses”, não pelo facto de ser futebol, porque até gosto de uma boa conversa sobre o jogo, embora não consiga identificar mais de uma dúzia e meia de jogadores da primeira liga, mas sim pelo sarcasmo e chacota, pelo aquele “incha porco”, aquele “vai buscá-las” constante. É bom dizer que não é só aí que me irrita, também não gosto de ver os dedos do meio no ar e ouvir os assobios sempre que numa festa se ouve o hino desta ou daquela equipa. No entanto quando estou no “line-up” aguardando a minha vez de apanhar uma onda, a irritabilidade para com a situação aumenta exporêncialmente.
Eu exemplifico o tipo de conversa:

“Pá apanhaste 3 e foram secos…” - diz alguém acabado de entrar com um sorriso nos lábios.
“Deves estar enganado porque ainda não fiz nenhum tubo hoje…” – respondo eu.
“Não foi hoje, foi no Domingo” - responde o mesmo mantendo o sorriso nos lábios.
“Mas no Domingo eu não entrei.” – ainda respondo eu feito otário. E a interessante conversa continua,
“Hoje até mias fininho” – responde.

E é então que se faz luz, a criatura está falar de futebol, e eu nem vi o jogo. Sou sportinguista porque foi o clube com que simpatizei em criança, mas não dou assim tanta importância à cena. O que eu gosto mesmo é de ondas. Para mais eu não estava lá, não estive a jogar e muito menos era o guarda-redes, por isso não entendo o porquê do “…apanhas-te 3 e foram secos”.
A vontade que me dá por muito que aprecie futebol é de quando me perguntarem de que clube sou, dizer que sou de nenhum clube, que não gosto de futebol e que me deixem apanhar umas ondas descansado.
Não sei porque me pus a escrever sobre isto, até porque não é um assunto de elevada importância, mas a verdade é que é algo que ocorre com frequência e me leva a pensar no porquê da importância desmesurada dada a um desporto e o desprezo total entregue a outros. Ninguém faz chacota dos resultados dos mesmos clubes noutras modalidades, e o mesmo acontece nas modalidades de ondas. Ninguém entra na água a fazer chalaças sobre a vitória do clube X sobre o clube Y na taça de clubes. Essa é uma das razões porque gosto tanto deste desporto e do seu estilo de vida. Aqui os clubismos são secundários e o que interessa é as ondas e o vento para amanhã, se haverá guita para as viagens e para onde vamos, a que dia sai a Vert, se alguém já sacou o Tension 9, onde é a festa no próximo fim de semana, se o campeonato sempre vai ser em Pipeline ou não, se alguém já viu as últimas fotos da Nazaré, onde fica a Cave, a glassada na surfada de fim de tarde do dia anterior, o silicone das mamas da Daniela Freitas, etc…Todas estas conversas parecem-me mais produtivas e agradáveis que troçar com alguém pelos golos que a equipa A ou C sofreu no último jogo ou se foram eliminados da taça por uma equipa da 2ªB.
Por isso vos digo meus amigos, que se lixe a taça, o que eu quero é ondas.

Thursday, June 29, 2006

O QUE É QUE ISSO INTERESSA?

Já há muito tempo que não assistia a um jogo de andebol. Aos 12 anos convidaram-me para jogar numa equipa de uma associação desportiva de uma aldeia da zona em que vivia. Tinham-me visto a jogar num torneio da escola e acharam que podia ter potencial. Recusei e fui jogar futebol nas camadas jovens do clube local que na altura estava na berra. Já não sei bem porque o fiz, talvez porque achei que era mais fixe, tinha mais pinta, todo o mundo gostava de futebol e ficava mais parecido com os craques que apareciam nos cromos que saiam nos pacotes de batata frita.
Não sei se por acumular as provas e os treinos de natação com os de futebol, ou por ter pouco jeito a dar chutos na bola, ou por chegar à conclusão que não gosto de desportos colectivos, ou pelo somatório de todas as atrás referidas, ao fim de duas temporadas acabei por desistir e comecei a fazer bodyboard, mas fiquei sempre com aquela pedra no sapato a lembrar-me que devia ter experimentado o andebol em vez do futebol, ter tomado a decisão por mim e não pela minha imagem em relação aos outros. Ficou a lição.
Enquanto vejo o jogo, penso naqueles jogadores trabalhadores, sim porque viver do andebol é só para muito poucos e maior parte dos jogadores de andebol acumulam a carreira desportiva com a carreira profissional (e que ali no campo dão 110% pela equipa, quando muitos jogadores de ligas profissionais nem a 50% jogam). A afluência de adeptos aos jogos é reduzida, o nome dos jogadores não vende camisolas, a exposição televisiva é quase nula e em consequência os apoios financeiros são muito reduzidos. Num intante lembro-me de uma conversa que tive com um bodyboarder da velha guarda que defendia a ideia que o bodyboard é um desporto em vias de extinção. Ele dizia que o fosso entre o surf e o bodyboard em termos financeiro era cada vez maior e que o bodyboard era cada vez mais amador, com orçamentos mais reduzidos por falta de patrocínios e que assim não havia futuro para a modalidade e que o surf assim, e que o surf assado... Ao ver este jogo pergunto se terá a mesma opinião em relação ao andebol, e quem diz ao andebol, diz ao hoquei em patins, ou o voleibol quando comparados com o futebol de onze, será que diz o mesmo em relação ao pingpong e ao badmigton quando comparados com o ténis, e estarão o longboard, o kneeboard, o waveski, o skimming e o bodysurf também condenados à extinção nas suas conclusões?
A competição organizada e federativa, e o dinheiro envolvido na mesma é importante para a indústria, para o desenvolvimento técnico e consequentemente para a modalidade, mas não é imprescindivel. Não se deixam de construir mesas de matraquilhos só por que não há equipas profissionais. Enquanto houver gente que goste de jogar, no café, na Associação de Estudantes, na garagem do amigo, a indústria dos matraquilhos continuará a existir.
Eu pessoalmente gosto do nosso desporto como ele é, até porque para mim é mais um estilo de vida do que um desporto. Nunca deixaria de correr na praia ao final do dia se deixasse de existir provas de atletismo, ou de ter uma bicicleta se deixasse de haver a volta a Portugal, ou de ter um skate na mala do carro para andar no estacionamento depois da surfada se não houvesse circuito nacional de skate, ou deixaria de ter carro se o desporto automóvel acabasse, etc. porque isso são hábitos que criei no meu estilo de vida, que nada tem a ver com a competição ou quanto é que um atleta ganha profissionalmente ou se há mais provas ou menos provas, e por tudo isto sinceramente não acredito que o bodyboard algum dia deixe de existir.
Já vai sendo altura de aceitarmos o bodyboard como ele é, quando nos disserem que não há apoios e que o bodyboard não tem futuro, que há poucos campeonatos, e que o surf é que tem a guita toda, etc. respondamos “o que é que isso interessa, caguei para isso tudo”, porque a verdade seja dita, 99,9% de vocês nunca tiveram patrocínios ou entraram em campeonatos ou ganharam dinheiro com prémios e não foi por isso que deixaram de fazer bodyboard e se deixaram de fazer pranchas e barbatanas para se curtir umas ondas. Essa guerra é para outros, não é para vocês, os que patrocinam e apoiam o bodyboard todos os dias.
"in VERT Bodyboard Mag #72"

Tuesday, June 13, 2006

SAUDADE

Estou no Porto em casa de um amigo que normalmente me dá guarida quando ando em trabalho por terras do norte. Há duas semanas que não faço umas ondas, passo os dias entre o asfalto e visitas a clientes. Irónicamente, corro o país a visitar surf shops, escolas de surf e bodyboard, e mar só vê-lo. A ideia que quem vive do surf passa a vida a surfar nem sempre está certa, e eu sou, neste momento, a prova viva disso. Amanhã tenho possibilidade de surfar mas pelo que dizem o único sítio para fazer umas boas ondas é no rio e logo para azar há um campeonato de surf. De qualquer modo decidi ficar por casa e rejeitar o apelo da noite da invicta, para me levantar cedo e checar o mar logo pela manhã.
Aqueço um chá e escolho um livro da estante da sala, quero algo fácil de ler, que não seja muito extenso, para não ficar com aquele entusiasmo de chegar ao fim e obrigar-me a ficar acordado até de madrugada. “Cem poemas de Sophia” salta-me à vista. O livro é estreito e contem cem poemas escritos entre 1944 e 1997 por Sophia de Mello Breyner Andersen. Desfolheio rápido a introdução e leio o primeiro poema que para minha admiração se intitula “Mar”.

“De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.”

Que partida do destino, quando me sinto mais saudoso de casa, surgem-me estas linhas. A bom dizer ainda não é Primavera e o Porto não cheira a àrvores ou a terra, mas sinto a força do poema como se tudo fosse verdade. Já andei em ondas de tantas praias, de tantos países e sempre que estou longe sinto falta da minha praia, dos meus amigos de ondas, aqueles com quem partilho as sessões mais épicas, as manobras mais iradas, mesmo que essas não sejam merecedoras de aplauso. É lá que me sinto em casa, naquela areia que piso há 29 anos, a mesma que agora pisam os meus filhos, onde aprendi que o respeito não se ganha com autoritarismo ou popularidade, mas na partilha de momentos, no salgar das amizades que se foram fortalecendo a cada surfada. Admito que sou viciado em bodyboard mas sou-lo mais pelas amizades que isso me trouxe, por esse companheirismo. Todos dizemos sonhar com um pico perfeito a quebrar sozinho só para nós, pois eu digo, após tantas viagens solitário, que esse pico só é perfeito se for partilhado com alguém a quem um dia se possa dizer “lembraste”.
Continuo a ler ao som da guitarra de Paco de Lucia, sinto o aroma a cidreira que saí da caneca, e penso que tal como escreveu Sophia umas páginas à frente, também eu,

“Quando morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar.”

in "VERT Bodyboard Mag #71"

Wednesday, December 29, 2004

BEM-VINDOS

Conspirações, rebeliões, visões e outras histórias de embalar. Tudo servido em água salgada e parafina para acompanhar. Sejam bem-vindos ao intrigante mundo da prancha amarela.
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